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Saturday, April 21, 2018

noite de meia lua em gotham city

é fim de tarde no coração da 
cidade seviciada 

o outono escurece as ruas 
mais cedo do que há 
pouco 

os carros desapareceram 
e nem os homens sofridos
vivem a morte em vida 
sobre as pedras 
portuguesas nas
calçadas

os bares estão vazios 
e nada garante 
as próximas
horas

nenhum batsinal no céu
onde está o nosso herói? 

o silêncio das vias explica
o óbvio: não temos previsão
para os próximos
dias

os casais adormecem às oito 
da noite 

a boemia faz brindes no whatsapp

existe tristeza e opressão: tudo é
mais do que assassinatos
mas os verdadeiros presidiários
de gotham city não dão uma
palavra
um pio sequer

vazias, as panelas estão 
emudecidas
viva o delivery! 

há solidão em cada ilha m
motorizada
as crianças não jogam
bola na rua 
e quase ninguém conversa

no centro de gotham city
um mendigo em desespero
com o coração ensanguentado
olha a meia lua e pensa
na morte que insiste em
não libertá-lo do 
inferno

enquanto 

raros transeuntes caminham 
apressadamente carregando
a trilha sonora da desolação
em seus fones de
ouvido e nenhuma
atenção

@pauloandel 

Friday, April 20, 2018

Tuesday, April 17, 2018

uma oração para copacabana

estes são dias em que nada supera o cheiro de ruas tristes

enquanto sou um exilado em meu próprio bairro

contando as horas para uma libertação que nunca virá

somos prisioneiros do ódio e da indiferença: o outro é o esgoto! 

copacabana, eu sou autópsia! 

suspirando pela lembrança da boite bolero e suas doces putas tristes
entorpecidas com cocaína

e sonhando com uma libertação que nunca virá

os mendigos e seus olhares derrotados
vazios e tristes demais

copacabana, eu sou teu suicídio
escondido nas cortinas do passado
em teus romances trágicos de fé

as moças em voo da morte
enquanto a bossa nova explodia

éramos futuro, poema e saudade
agora não passamos da desolação

oh, senzalas de marquise, farmácias lotadas, gente chique escondida
e as favelas do metrô - existe o sol! 

estes são dias da indiferença a sangue frio e os derrotados comemoram

a vez é dos nazistas, dos racistas, homofóbicos e principalmente hipócritas: 
quem vai resgatar o morto das pedras do leme? 

somos tão alheios aos outros, não precisamos de ninguém

minha cabeça é um crânio ensanguentado num quitinete de piso frio e branco no coração de cada

onde está o homem queimado que fazia belos desenhos na grande avenida? 

a mão que matou aída curi é a mesma que fuzilou marielle noutro canto da grande cidade 

os filhos de porteiros já não namoram as garotas dos prédios de Garbo
e a orla da praia parece tão triste

o ódio é o óleo queimado da nossa tristeza e já não temos para onde ir 

somos a grande capital da miséria humana, tão superficial 

nunca mais pintaremos as ruas nas copas do mundo

nossos amigos estão mortos e desaparecidos ou trancafiados nas celas dos smartphones 

copacabana eata semana morreu: deixou seus órfãos mas nenhum bem material que não seja a beleza

as mais doces putas nunca foram vistas novamente 

nem o mendigo cadeirante com sonda de urina em berço de morte na rua siqueira campos 

nem os meninos que esmolavam perto das casas da banha

copacabana, meu ventre escravo é tua dor interminável, o rio rumo ao mar infinito até a busca de terra firme e corações abraçados - também órfãos da tempestade

e é preciso chorar pelos irmãos separados, as vidas espatifadas, as vidas em vão feito carne a moer em máquinas do progresso

não é possível crer que todos cantaremos juntos uma grande canção

nunca mais nos encontraremos nos bares, nem beijaremos as belas garotas e nem os rapazes vão se entender

o cirandinha está morto e enterrado
o bonino's está morto e enterrado
e decapitamos nossa classe

sou outono e quero ser inverno, perdição gelada aos pés do atlântico sul, sem minhas tardes de cinema

copacabana pulou da janela e não deu chance de resgate
espatifada na calcada, planeja uma ressurreição alla gotham city
porque fausto fawcett resiste
o bar sniff resiste 
e katia frança voltará da flórida para nós redimir - não, não seremos o inferno! 

esta semana eu sou minha dor solitária e vejo ao longe as areias que beijam o forte

a morte não resiste à minha tristeza infinita - eu posso derrotá-la
nenhuma bala no crânio há de solicitar o meu fracasso, vendo os meus em descaso, perdidos entre as distâncias e o nunca mais 

copacabana, minha eternidade que beija o déjà vu, que abençoa os randez-vous, que amansa e aquece conspirações

se tudo parece perdido, ainda temos nossas ruas e amores, pequenas histórias desimportantes que regamos com risos e lágrimas, nossas pequenas vidas

tudo é efêmero, mas a linda curva de areia está fadada à eternidade - é a beleza que ainda nos serve de resistência enquanto temos forças

copacabana, capital dos sonhos, desilusão dos miseráveis, combustível da imensidão humana, verso e bairro

descanse meu coração em paz

@pauloandel  

Tuesday, April 10, 2018

farsa

enquanto caminho pelas
veias de asfalto sangrentos
vejo os corpos em
decomposição 
na autópsia das calçadas
frias e indiferentes
vejo os escombros
a miséria e a insensatez
eu caminho pela terra
batida com carcaças 
de carros incinerados
e cadáveres insepultos
e meus olhos armazenam 
cenas de terror e solidão
eu caminho sem canto
sem prece nem crença
a indiferença é um bem 
humano da selva de pedra
o desprezo é o bom dia
eu sigo triste e sozinho
pelo calçadão enquanto 
homens e mulheres celebram 
a morte e as mortes
as farsas nas prisões: 
o que foi feito daquele amor 
que trocamos por hipocrisia? 

Sunday, April 08, 2018

Funk do PIB

eu sou PIB mermo/ e explano pra geral/  comemorei o golpe/ e aplaudo os general/  queria o Lula preso porque ele é safado/ o corno Bonner disse pros mané teleguiado/ tem que fuder os preto as piranha e os viado/ isso é que eu penso para o bem do meu Estado/  a minha faculdade já foi feita em Facebook/ os livro é pra otário/ quero meus latão e nude/ os meus latão e nude/ os meus latão e nude/ agora finalmente acabou a corrupção/já tem emprego a rodo e segurança de montão/ saúde e transporte e também evolução/ isso tava escrito nas manchetes de jornal/ eu li e acredito, não me chame de boçal/ sou PIB, sou PiB/ Perfeito Idiota brasileiro/ sou PIB, sou PiB/ Perfeito Idiota brasileiro/ é nesse funk doido que eu canto o batidão/ e mostro para o mundo como eu sou um bobalhão/ se depender de mim nem precisa de eleição/ já tenho minha night meu papel e meu latão/ eu vou pra interméti e sou curtido de montão/ eu só escrevo merda mas me acho um fodão/ eu tenho a soluçao para os pobrema da nassão/ 
sou PIB, sou PIB/ Perfeito Idiota brasileiro/ sou PIB, sou PiB/ Perfeito Idiota brasileiro

Wednesday, April 04, 2018

a tempestade em dia solar

a liberdade é utopia quando
os corações estão embebidos em ódio

a liberdade é uma farsa
nunca seremos verdadeiramente livres
não existe vitória no fascismo
nem nas síndromes de Estocolmo
ainda somos tão atrasados 
quanto há cinquenta anos escorridos
torturaram e fingimos não ver
estupraram e fingimos não ver
a indiferença é a nossa cegueira
a estupidez é nossa esperança
- enquanto isso, contamos nossos mortos
nossas mulheres fuziladas
as mãos de esmola que desprezamos 
a nossa ética seletiva
minha voz enternecida só vai gritar palavrões
e frases odiosas
canta a tua última canção, Brasil
até a próxima grande farsa!
em nome de deus, da pátria e da família
espalhamos cólera e ignorância demais
depois contamos nossos mortos 
e preparamos as malas para o feriado
hipócritas, doces hipócritas que somos
fingimos felicidades mentirosas
ou até 
sinceras, dependendo do grau 
de escrotidão
gostamos de gente debaixo das marquises
ou sob escombros dos barracos
estes crimes dão sentido às nossas vidas
fúteis
celebradas no fascismo do jornal nacional
do café da manhã com frutas e frios
e tiros na lataria blindada
nunca seremos livres 
enquanto formos tão boçais
celebrando as mortes, a dor e o caos
até o derradeiro tiro na cabeça 
o grande voo da morte pela janela vazia
até o último voto de confiança no ódio
canta, Brasil! canta, canta! 
ah, república federativa cheia de árvores
derrubadas em vão
e gente dizendo 'eu não tenho bandido de estimação'

@pauloandel 

(contém citações de "Canta Brasil", de David Nasser e Alcyr Pires Vermelho, e de "Serafim Ponte Grande", de Oswald de Andrade)

Friday, March 30, 2018

hey, amor

hey, amor/ as coisas continuam fora do lugar/ o caos é nossa matriarca gentil/ eu continuo sem você/ e tão sem mim/ o brasil precisa amanhecer/ o que será daquele um só mesmo?/ e das manchetes encardidas/ desta selva de pedra nazifascista/ mas ainda existem restos de amor/ my love said never felt him so good/ longe do mar de lágrimas das entranhas da rua/ longe do ódio e dos fuzilamentos/ um milhão de detentos para justiça alguma/ o sol ainda brilha em abril/ mas temos contado mortos demais/ as veias de asfalto estão sangrando demais/ meu coração ainda espera por ti/ nunca estarás morta no que vejo/ não viveremos para sempre no exílio/ nem pediremos esmolas aos que nos veem com nojo/ não precisamos destes bostas para nada/ hey amor/ hoje é uma noite solitária/ de dia santo e mil diabos pelas ruas/ pobres diabos sem rumo nem preço/ ainda choro por ti/ e me desaconteço/ Brasil/ minha voz enternecida/ calou-se à última canção/hey amor/ se eu não te ver nunca mais/ saiba que te carreguei feito os versos de um poema emblemático/ dos dias sofridos da grande metrópole/ onde todos são todos e cada um é ninguém/ só eu sei das esmolas que peço a mim mesmo/ perdido na solidão das ruas/ despencando do décimo andar da tristeza/ até me estraçalhar no chão/ para viver outra vez sem razão/ hey, amor/ a madrugada tem silêncios moles/ a solidão traz poesias de ironia e cores/ queremos pequena fé enquanto degustamos os rumos da desesperança. @pauloandel

Thursday, March 29, 2018

Tuesday, March 27, 2018

A panfleteira


A GAROTA morena e jovem está na porta da casa de tolerância panfletando a propaganda de serviços sexuais, enquanto espia o smartphone e usa um fone de ouvido. Ela parece jovem, é mais jovem do que se pode supor, mas carrega as marcas do tempo veloz de quem trabalha na prostituição. Ela atende clientes também. Ela às vezes sorri, enquanto na diagonal da Rua do Senado um panfleteiro conversa com transeuntes e veste uma camisa de time de futebol. Ela também é séria e compenetrada em seu trabalho. A Rua do Senado é vazia e quente perto de uma da tarde, quase sem carros, praticamente sem gentes. Mais adiante, ouve-se um poderoso som de funk saído de um cortiço. Mais adiante, uma voz em alto-falante ecoa do Quartel Central do Corpo de Bombeiros. Mais adiante, duas jovens e belas garotas, elegantemente vestidas, saem do palácio corporativo da Petrobras rumo ao almoço ou qualquer outra coisa. Elas são bonitas e jovens, bem jovens, tão jovens quanto a garota morena que panfleta honestamente na porta da casa de tolerância, jovens demais mas com trajes de sobriedade empresarial bem sucedida. As duas garotas cochicham e riem, do mesmo jeito que a garota morena fez cento e cinquenta metros atrás ou adiante - conforme o referencial, mas também conversam seriamente e tudo se resume a uma distância muito pequena quando se pensa em andar, mas imensa quando o caso é entender o Brasil, as desigualdades, as oportunidades e o futuro de jovens mulheres que, por incrível que pareça, andam pela mesma calçada – e nela, podem acontecer os únicos encontros de suas vidas, mas no máximo com um esbarrão e só. 

Saturday, March 24, 2018

carne tesa carne

carne tesa carne
inebriada
de desejos e tesões
- ah, perversões! 

cantos danças corpos
madrugada
e carnavais de pele 
pra quem entende

o sexo em riste
o gozo e o contraste: 
há efêmero e eterno
descartável e permanente

os colos trêmulos 
os líquidos pulsantes
a vida o êxtase - há cor
e mil estrelas à vista

o abraço do prazer 
cumprido e o fim 
do gosto proibido
- existe a paz! 

@pauloandel

Tuesday, March 20, 2018

bella blú

nenhum poeta escreverá 
os versos na toalha de mesa
na última grande noite 
da pizzaria - não, nenhum! 

copacabana é um peito 
cansado e triste, vazio
perdido em lembranças vãs
e memórias em decomposição

a linda prostituta nunca 
mais cortejará seu 
elegante cafetão na última
grande noite da pizzaria

nunca mais os jovens 
famintos à espera do 
amigo mais velho e rico
para pagar algum prato

os mafiosos italianos 
com elegantes camisas
vermelhas agora são mera
lembrança do longe, longe

copacabana não dorme
e joga fora os armários 
de fatos e fotos - a vida 
em riste e mil faroestes

as ruas são farmácias 
os doentes, empilhados
debaixo da marquises 
e de olhares de nojo

a cólera é a covardia
enrustida

somos hipócritas imorais
em nome de Deus

nunca mais dois amantes
darão as mãos à mesa 
na última grande noite 
da pizzaria

alguém proteja o bar 
sniff e a adega pérola
até mesmo o velho pé sujo 
da anita garibaldi 

antes que o mundo seja
um tarde demais à noite 
mais quente do ano - tão fria
para os corações saudosos

@pauloandel 


Sunday, March 18, 2018

PIB (Perfeito Idiota Brasileiro)

Desprezar, fazer pouco caso ou reduzir o tamanho da monstruosidade cometida contra Marielle não é sinal de politização, consciência ou de "opinião polêmica". 

Na verdade é desumanidade, estupidez, incapacidade de ver o próximo como semelhante e, por fim, desconhecer um palmo à frente do nariz quando o assunto é Brasil. 

É falta de convivência, apreço, respeito, dignidade. 

É ler sem entender, aplaudir sem compreender, olhar sem enxergar. 

É achar que suas deliberadas manifestações de falta de raciocínio são "polêmicas" ou "para abalar". 

Estupidez. Desumanidade. Marcas típicas do PIB, o Perfeito Idiota Brasileiro. 

O fuzilamento foi cometido próximo à Prefeitura, ao Hospital Central da PM, ao Batalhão de Choque e à Acadepol, para que não deixasse dúvidas: os assassinos e seus mandantes deixaram um recado claro de escárnio às instituições. Debocharam de todos os policiais honestos e agentes públicos das mesmas. "Quem manda nessa merda é a gente. Uhu!"

Por sinal, a luta de Marielle também envolvia a defesa de famílias de policiais fuzilados como ela foi. 

O PIB sequer percebe que, para expor gratuitamente a sua falta de visão de mundo e a sua colossal ignorância (que independe de "anos de estudo"), é preciso democracia - e ela inexiste quando qualquer pessoa é fuzilada. 

Quantos livros, quantas aulas, quantas horas, quanta coisa foi jogada fora em favorecimento dessa verdadeira apologia ao primitivismo... 

O PIB é a realidade modal do Brasil, e também a sua maior desgraça.

Saturday, March 17, 2018

eles estão mortos demais

haja o que houver
eles estão mortos demais
afogados na própria cólera
engasgados com fel
na saliva
eles são a verdadeira carne
podre que anda e ri sem
entender as mazelas do mundo
fantoches das manchetes
vassalos da televisão
haja o que houver
eles são os verdadeiros mortos
os suicidas da lucidez
e celebram suas desgraças
sorrindo pela dor dos outros
e comemoram a morte da mártir
a mulher indefesa fuzilada
eles são corpos em decomposição
nas geladeiras mortuárias
quebradas nas redes 
antiasociais
pulhas pilantras medíocres
boçais ignorantes
débeis mentais
que leem mas não entendem
que pensam mas não
raciocinam
que olham mas não enxergam
sim eles estão felizes
a estupidez lhes regenera
mas o fascismo não é para 
sempre quem atira e mata
também morrerá - o ódio
é o mais certeiro fracasso
haja o que houver por aqui
o assassino é um morto 
em vida - que ninguém se
iluda eles sabem da própria
morte infeliz e nojenta 

Tuesday, March 13, 2018

Picaretagem no samba


No mundo do samba, é difícil encontrar alguém que já não tenha ouvido ou visto o Grupo Cultural Exaltação ao Samba de Enredo, que sempre foi conhecido como Grupo Samba Enredo, seu nome original. 

Primeiro, pelo principal: talento. 

Segundo, porque o conjunto já passou por várias quadras das principais Escolas de Samba do Rio em seus dez anos de carreira, além de ter tocado com praticamente todas as Velhas Guardas em suas apresentações.

Há anos, o Exaltação toca na quadra da Mangueira, da Portela, no Bola Preta, no tradicional sábado de samba do Tijuca Tênis Clube e em seu berço, o bar Armazém da Senado, um dos endereços mais tradicionais da cidade, com 111 anos de vida. Aqui falo de cadeira porque vi seus shows em vários desses lugares.

Um dos principais incentivadores do grupo em sua fundação e trajetória é Rubem Confete, que é uma lenda viva do samba carioca, além de compositor, jornalista, roteirista, teatrólogo, radialista, gráfico, cantor, ativista e estudioso das questões afro-brasileiras.

No Tijuca Tênis Clube, o Exaltação é grupo fixo, levando centenas de pessoas às suas apresentações que duram horas em sábados alternados.

Alguém me avisa e fico sabendo de que, no Facebook, foi criada uma página do grupo... “Samba Enredo”, que nada tem a ver com o original, mas é um projeto que, no mínimo, tenta se aproveitar do primeiro, usando um nome parecido.


Ao visitá-la, vejo que o show de “lançamento nacional” do grupo é no dia 21/04... no Tijuca Tênis Clube, o mesmíssimo endereço onde o Exaltação toca há anos.

É quase o mesmo que, se nos anos 1980, tivesse surgido um grupo de pop rock chamado Legião Suburbana, Parabrisas de Bonsucesso ou Barão Verde. Tentativas levianas de driblar acusações de evidente plágio.

No entanto, lançar um grupo quase homônimo no mesmo lugar onde o original toca há anos é, no mínimo, um exercício descarado de má fé.

Indignado, publiquei na página o vídeo de documentário do Exaltação, recebendo uma resposta inacreditável: que se tratava de uma “nova proposta” (sofisma para disfarçar plágio descarado) e, logo abaixo, um emoji que não sei dizer se é de raiva ou vergonha.

Mas a minha indignação naturalmente não foi a única. Afinal, muita gente acompanha o Exaltação há anos e anos. Repare nas respostas da "nova proposta"...




É justo que um grupo tente buscar espaço no mercado da música. Agora, é ABOMINÁVEL a desfaçatez de plagiar e se começar numa carreira usando o trabalho consagrado de outros artistas como “escada”. 

No mínimo, cabe um ajuizamento claro.

É o tipo de coisa que já causa no mínimo mal estar em qualquer área, imagine na arte.

Espero que os responsáveis pelo plágio, a ponto de tentar ocupar o mesmo espaço físico do grupo original, caiam em si a tempo de desfazer este ato claramente lesivo à imagem e trabalho do Exaltação. Contudo, se não o fizerem, já começam dando vários passos para trás, para não dizer um tiro no pé.  

Na arte, a traição não perdoa.

Para seguir o VERDADEIRO Grupo Exaltação ao Samba de Enredo, acesse A PÁGINA DO FACEBOOK.


Sunday, March 04, 2018

breve


Monday, February 26, 2018

uma janela do mundo

o negrume de um
quarto
escuro
e procuro no teto
o mapa mundi
do fim do
mundo

o mês que se despede
a opressão que insiste
em coibir a vida:
a liberdade
é uma farsa
de calças arriadas

debaixo do teto
de um quarto escuro
funciona um bunker
de proteção contra
o fim do mundo

as mensagens estão
mudas
a palestra parece
vazia
ninguém troca
amores
escondido no escuro
do quarto vazio
numa noite do mundo

quem vai nos salvar
de vez?

os corações perfeitos
parecem arredios
demais

@pauloandel


Sunday, February 25, 2018

amor mora

onde mora o meu amor
além dos silêncios
e desencontros 
ou em palavras que
nunca são ditas? 

perdido entre hiatos
náufrago da distância
retrato de natureza 
morta

ah, o meu amor
escondido em prateleiras
e postagens
insignificantes
ou em versos de 
passos tortos
claudicantes de 
um bêbado admirável 

ele estende as mãos 
de paixão
e pede esmolas 
debaixo duma marquise
numa grande avenida 
central

o meu amor anda sozinho
por ruas perigosas
e não dá bom dia 
a estranhos

não dorme mas sonha
e espera o impossível 
na próxima esquina

ele mora longe, longe 
sem palavras

o meu amor está falido
em portas arriadas
cadeados fechados
e placas de aluga-se

há poesia em vão
escorrendo entre corações
de peitos vazios
e memórias desperdiçadas

o meu amor tão sozinho
esperando o VLT
às oito horas na Rio Branco
enquanto famílias
felizes trazem os filhos
de mãos dadas

ou alguém olhando 
o antigo relógio da Mesbla
subindo a escada do metrô
na Cinelândia

o meu amor é um domingo
à noite
silencioso e fugidio
sem bares lotados 
e risos
sem um grito de campeão

o último pouso 
no Santos Dumont
enquanto a linda
comissária parece
tão indiferente ao fim
do expediente

o meu amor é um país 
destruído
é um féretro vazio
é um livro que não
foi lido

e mora tarde, tarde 

ele dá as costas 
e dá de ombros
para caminhar sozinho
na madrugada
na avenida chile
procurando a morte
num assalto covarde
 - ou celebrando a vida
sob escombros
no coração da grande 
cidade 

@pauloandel 

Wednesday, February 21, 2018

a tristeza soberana da guanabara

inevitável é pensar:
soberana, a tristeza

em meio à tempestade

os desprezados e humilhados
ratos humanos em busca
de toca
os corações solitários
oprimidos
em terra de cobiça
e modernas senzalas

a cidade e suas águas
melancólicas
pela própria natureza:
os famintos, desabrigados
o desprezo tão humano
e alheio ao razoável

a opressão em doses cruas
o desamor a indiferença
o sofrimento em peles queimadas
e drogas letalíssimas
à venda numa TV
que nem Paul Simon acode

o amor que delinque
o tesão que não se
cumpre
os sonhos sob
escombros
a cidade afogada em
lágrimas

não há vagas
não há sonhos
não há abraços

e as mãos mendigas
afagam a morte
sob marquises infiéis

e as mãos mendigas
procuram um aperto
um abraço de palmas
mas só encontram
pequenas moedas, se muito

hoje é um novo dia
para os mais ingênuos
os indiferentes
os homens de negócios
chamando as pessoas
por números e valores
e contas desprezíveis

depois do sinal os
recados
são a consagração
da inutilidade
diante de todos os
mortos
os corações dilacerados
em vão:
somos um lindo planeta!
nosso único pecado
reside na colossal
hipocrisia
ninguém há de resgatar
a lama suja da nossa
insana hipocrisia

o sinal caiu



Thursday, February 15, 2018

Download grátis do livro "A essência do FDP contemporâneo brasileiro - uma conversa de botequim"









A Globo é a mesma de sempre

É natural que a Globo passe a mirar seus fuzis para a Tuiuti.

Acostumada a colonizar opiniões, oprimir e apartar brasileiros por meio de castas, ela não toleraria impunemente a verdadeira humilhação que passou na Sapucaí, ao ter pago para transmitir a demolição de suas mentiras em rede internacional. E, como sempre faz, agora busca meios para destruir moralmente sua nova inimiga número um.

A "novidade" é, em nome de sua ética elástica, apontar o terrível acidente que vitimou uma pessoa ano passado na avenida como a "mancha" para o desfile-denúncia que ganhou o mundo no Carnaval 2018. Tudo dentro das perspectivas de cinismo de quem vê o povo brasileiro apenas como mercado consumidor, dócil e submisso.

Quantos crimes contra o povo brasileiro têm sido estimulados, apoiados ou promovidos pela Globo no último meio século?

A mesma Globo que fez tudo para sabotar o Carnaval de 1984. Ou a que apoiou todos os golpes contra a democracia no Brasil, para décadas depois 'pedir desculpas' cinicamente. Ou a que editou criminosamente um debate presidencial para impor seu candidato ao país, elegê-lo a marretadas e depois descartá-lo quando ele contrariou algum de seus interesses.

A Globo que hipocritamente denuncia o 'crime' da Tuiuti é a mesma que sempre apoiou, bajulou e promoveu poderosos homens do Carnaval, todos eles com enorme ficha criminal desde sempre. Nunca se preocupou com crime algum. É uma farsa. O que lhe incomoda é ter sido desafiada perante o povo brasileiro, sem capacidade de reação simultânea, exceto a ridícula supressão de comentários na reprise do dia seguinte.

A mesma Globo que, anualmente, com a força de seu dinheiro (obtido dos pobres que ela tanto odeia), humilha as escolas de samba porque "paga a transmissão". O desfile é transmitido cortado para dezenas de milhões de pessoas há anos. As primeiras escolas a desfilar, excluídas. Trabalhadores de um ano inteiro são condenados à invisibilidade para que ela, Globo, possa exercer os seus caprichos de programação. Quem não aceitar, está fora.

A mesma Globo que 'promove o futebol', impondo-o nos horários mais estapafúrdios, mas paga propina para a FIFA visando unicamente benefício próprio. Ética e moral seletivas.

A mesma Globo que quer triturar o brasileiro com essa farsa da reforma da presidência, mas que não esboça a menor preocupação quando um de seus funcionários, alçado à condição de 'presidenciável' (é a cara da emissora), 'fatura' um jatinho no BNDES para gerar zero emprego. Aliás, falando em dinheiro público, em matéria de calotar tributos a empresa de comunicação (editada) é multicampeã de todos os Carnavais. E depois coloca a culpa nas aposentadorias...

A mesma Globo farsante que, durante anos e anos, tentou destruir a imagem de Leonel Brizola, até que um dia foi humilhada em suas próprias câmeras de transmissão por determinação da Justiça, a mesma que hoje ela faz tudo para manipular, tratando os brasileiros como marionetes ou fantoches.

Qualquer semelhança de reação odiosa contra o desfile da Tuiuti em 2018 e o vídeo abaixo não é mera coincidência.

Nos dois casos, a Globo foi desmascarada em rede nacional, diante de suas próprias barbas.

https://youtu.be/ObW0kYAXh-8

Tuesday, February 13, 2018

todos todos os dias

todos os dias, morre um policial a tiros, disparados por armas que os bandidos compram da própria polícia.

todos os dias, os golpistas tentam convencer os golpeados de que a corrupção deles é legítima.

todos os dias, escravos contemporâneos batem palmas para os maus atos dos senhores de engenho da era moderna - e vibram com as chicotadas que sofrerão

todos os dias, a estupidez comum impede o entendimento das manipulações praticadas pela TV, seus jornais e demais veículos de comunicação

todos os dias a massa de manobra não percebe que é manobrada, enquanto os fantoches se divertem com a própria mediocridade

todos os dias, o ódio tem vencido o amor, a fome tem vencido o conforto, a hipocrisia tem vencido a sensatez, a cobiça tem vencido a paz

todos os dias, a humanidade escorre pelos ralos em troca de nada, a maior parte das vidas é sofrimento em troca de nada, a miséria é a lei magna

todos os dias são a casa grande para poucos, a senzala para uma multidão, mas ficamos felizes com nossos smartphones em plena idade média

todos os dias são mãos mendigas estendidas, gravatas e ternos em correria, ladrões em bando dando porrada e matando, o caos latejando

todos os dias são de cidades esfaceladas, vidas perdidas, ordem e progresso das mentiras e crimes, a banalidade da morte, a opressão

todos os dias são pavor, morte, tristeza, pobreza, exclusão, aparte, insensatez, ignorância, tragédia e muita estupidez

é preciso mudar estes dias, a ferro e fogo, a espuma de sangue a brilhar, acabar com uma escravidão que nunca foi extinta, apenas realinhada, adaptada, marretada

@pauloandel

nem um lugar

nem um lugar
um mísero lugar
nenhum lugar
escreve amor

Monday, February 12, 2018

tempestade

há muitos anos tenho
visto as dores
o sofrimento
dos outros o meu

todos parecem tão
felizes enquanto
choro - ninguém repara
ou finge não perceber

tenho sido testemunha
das misérias infinitas
da indiferença e até
do ódio cru e rijo

já vi de perto os dramas
as tragédias as mortes
o desespero e muitas vezes
não encontrei
outras lágrimas além
das minhas

ah, as pessoas estão
ocupadas
elas têm suas vidas
ou estão desinteressadas:
ninguém tem culpa
deste mundo injusto
e cruel exceto
a raça humana

agora vejo a melancolia
a violência o ódio
o assassinato por nada
ou quase nada ou qualquer
coisa - a selvageria venceu:
ela mora nos discursos
dos homens brancos de bem
e também nos porretes dos
bandidos pretos e brancos
ou de qualquer outra pele

agora vejo o passado em
remake: a idade média tem
smartphone o crime tem
piratas e quadrilhas selvagens
enquanto se mija e caga
nas ruas tão carnavalescas

agora o futuro é ontem
a esperança virou desprezo
e só falta acontecer de vez
a nova guerra dos cem anos
as cruzadas os corpos
estraçalhados por cavalos
as cabeças decapitadas
tudo está aí no jornal nacional
e o contragolpe não será
televisionado o contragolpe
não será televisionado
ainda somos os mesmos
e vivemos chicoteados
por manchetes editadas
por farsas golpistas e mãos
estendidas à espera de
uma esmola em salvação

há muitos anos tenho sido
o menino mais triste
do mundo
não importa quem esteja
ao meu lado a cada passo
eu choro pelas dores de tudo
e sou o menino mais triste
do mundo ainda mais agora
que o fim parece tão mais
perto do que o começo

mas as pessoas estão felizes
ou fingem estar felizes
- o errado sou eu certamente
não sei enganar a mim mesmo
e sei que o tempo é cada vez
mais escasso e rápido, rápido

minha dor reside em testemunhar
a grande ilusão do mundo
e toda a minha impotência
não salvarei nem a minha vida
triste e deprimente vida - não:
eu não tenho mais tempo
nem força nem esperanças
em deixar um pedacinho
de terra melhor do que encontrei:
nem terra eu tenho!
o que me restou foi procurar
beleza em meio a uma
tempestade interminável

minha dor respira, inspira, respira
sem ajuda de aparelhos sem atenção
caridade ou amizade sem mais ninguém
a minha dor é o que me basta

@pauloandel


Sunday, February 11, 2018

um abraço de Carnaval

Dois homens conversando nas imediações da Mem de Sá em plena alvorada do domingo de Carnaval. Podiam estar indo ou vindo, mas ali eram apenas dois confidentes, talvez tentando espantar a tristeza com um dos únicos punhados de celebração destas terras, que é quando as pessoas vão às ruas e cantam, dançam, transam, gozam, vibram e procuram algum sentido numa vida que é, entre sofrimentos, o intervalo para um trago ou um gole.

Falavam baixo para uma festa e alto para a madrugada, quase atrapalhando o sono desesperado dos mendigos nas imediações. Falavam de samba e sociedade, de alguma alegria e afeto, de pequenos brindes e deliciosas ilusões.

Quando se abraçaram, eram mais do que amigos ou irmãos. Dois camaradas, dois sobreviventes da guerrilha urbana, dois trabalhadores humildes celebrando os últimos momentos da primeira grande noite de Carnaval.

Um tomou um ônibus qualquer. O outro tomou o caminho de casa a pé. A noite acabou, o silêncio apareceu, o negrume do céu fica cada vez mais azulado, a Praça da Apoteose estava deitada em seu berço esplêndido. Ainda vai ter festa, mas tudo passa tão rápido que é preciso saborear cada momento.

Duma janela nas imediações, um velho homem testemunhara a despedida dos dois camaradas. Pensando em seu passado, quando acreditava ter amigos e estar longe do fim, ele se calou e chorou.

É Carnaval, mas existe um estranho cheiro de ruas tristes no ar.

Wednesday, February 07, 2018

eu não tenho a menor ideia

se existe alguma verdade
ela é: não sei
não sei da minha vida
não tenho planos
não sei se a minha morte
está logo aqui ou longe

não sei quem me amou ou ama
quem gosta de mim
quem me abraçou de verdade
e sente falta

não sei direito a quem ajudei
se influenciei alguém
quem se emocionou com algo que fiz

eu não sei quem pensa em mim com amor
não tenho a menor ideia de quando fui marcante
ou se fiz chorar por algo bonito
será que lembram de mim no sniff?
no que sobrou do loreninha?
ou da parede de uma casa aos escombros
em arraial do cabo?

quem comprou discos de jazz comigo
em ipanema?
quem me ouviu em mesas de bar?
eu não tenho a menor ideia
se sou importante para uma única pessoa que seja
e realmente não penso nisso:
o que fiz e tenho feito é ser sincero
amar e ajudar o próximo
desde os tempos em que fiz uma promessa
quando era um garoto com o mundo pela frente
quando fred era meu amigo inseparável
e jogávamos botão à tarde numa mesa de tacos

eu não tenho a menor ideia
de quem me lê ou escuta
quem sorri com minhas pequenas trapaças
em versos tortuosos e nada óbvios

quem entende por que vivo numa guerra particular
chorando e vendo os destroços da gente
amontoados debaixo das marquises?

eu não sei
sobre os piores futuros que se avizinham
sobre o meu tempo
que é cada vez mais perto do fim
do que do começo
das coisas que passam velozes
feito a paisagem numa bela janela
do vlt
eu não sei dizer
porque gosto tanto de miles davis
e jorge mautner e carlito azevedo
de rubens figueiredo e cacaso
e também jards macalé - tom zé
como se todos estivessem comigo
a conversar sobre o nada - uma ilusão

eu não sei dizer
porque sempre choro no cinema
e sofro tanto com a dor de um mundo
que não tem solução
nem que eu fosse egoísta
e só pensasse em mim mesmo
eu não sei dizer
se whatsapp é amizade mesmo
se normalidade é distância e frieza
não sei dizer o que é normal
no dito mundo dos adultos
o quê?
                  [aqui padeço a cada dia
                   como se cumprisse uma pena

eu não entendo o mundo e seus rancores
suas vaidades ocas
o pedantismo reinante
se vamos todos um dia
ser carne apodrecida ou cinzas
numa caixinha
é tudo tão inútil

eu não tenho a menor ideia
eu não tenho a menor ideia
eu não tenho a menor ideia

mas nem isso me liberta
e sigo vivendo até não sei quando
o que virá

a luz no fim do túnel
o desabamento final
ou qualquer coisa muito diferente
de todas as que pensei
e vivi - até aqui quase nada
fez sentido mas talvez
o grande lance seja mesmo este:
ficamos a procurar pela vida inteira
o que não existe
o que faça sentido porque
na verdade a vida e o sentido
devem caminhar em paralelas perfeitas

                             [elas jamais se cruzam

eu não tenho a menor ideia
eu não tenho a menor ideia


@pauloandel 

Monday, February 05, 2018

o suicídio da cidade

há tristeza 
tão sincera por 
todos os poros
da cidade

mergulhada na 
falsa felicidade
do Facebook
nas verdades ocas
do WhatsApp
nas manchetes mentirosas
dos jornais
e suas imitações baratas

a tristeza é vencedora
nos semblantes arrogantes
na indiferença para com 
as mãos de esmola 
no ir e vir das gentes apressadas
no silêncio dos vagões lotados
e cabeças pensantes 
com fones de ouvido

há tristeza na política 
feita por gente de merda
na hipocrisia de generais
e juízes de merda 
tristeza nas grandes avenidas
nas vielas, nas ruas esquecidas
há tristeza nas mãos armadas
de jovens traficantes 
deixando a vida escorrer
em rastilhos de sangue seco 

a tristeza nas portas das lojas
cerradas
nas vagas já preenchidas
na violência primitiva
no desamor que prevalece
e no amor que só existe
nos desencontros 

há tristeza numa banca de revistas
sem leitores
numa carrocinha de açaí
sem compradores
numa linda praia de Copacabana
deserta e fria 
há tristeza nos arredores
da Cinelândia 
e da avenida Rio Branco

é carnaval, e daí? 
a tristeza é a grande vencedora
a campeã do desfile
escondida entre os sorrisos
a cantoria, o tesão 
a tristeza pelo que poderia ter sido
mas nunca será
a geografia permanecerá intocável
mas é impossível esconder 
a tristeza: somos sem dúvida
uma cidade triste
por todos os poros de concreto
em cada gota de sangue 
nas artérias de asfalto 

tanta beleza infinita 
num mar interminável 
de corações tristes
e outros, infames, egoístas
é carnaval, é carnaval
mas muitos de nós carregamos
no peito um funeral
lágrimas contidas 
e a sensação de que já
fizemos o suficiente
o suficiente
o suicídio da cidade é um poema
alguém não para de chorar! 
celebremos o fim do que sequer
começou 

@pauloamdel 

Sunday, February 04, 2018

somos todos ódio

agora temos ordem
e progresso
somos todos
ódio
cólera
desprezo e empáfia
no outro vemos apenas
um escravo
um bosta
um número
odiamos nossos vagabundos
na calçada
mas aplaudimos nossos pilantras
de gravata
parecemos tão antenados
mas somos cópias do discurso
da televisão
as chacinas já não nos importam
não temos nada a ver com isso
e acreditamos com fé, santa fé
em nossa estupidez carnavalesca
adoramos criticar ditadores
mas somos incapazes de enxergar
a tirania que envolve as nossas favelas
as nossas favelas
as ruas e praças e bairros:
viramos reféns da nossa própria indiferença
o que podemos oferecer é ódio
foda-se o outro o pobre o bosta
somos pessoas de bem
quem nunca saiu na mão com uma mulher?
quem nunca recebeu auxílio moradia?
nós somos contra a corrupção
(dos outros)
nós somos em defesa da família
(a nossa)
e assim vivemos em berço esplêndido
da nossa fina hipocrisia
namorando vitrines de shoppings
gritando uhu atrás dos cordões
xingando o show da travesti
e nos calando diante de traficantes morais
um helicóptero de cocaína não nos importa
queremos ser classe pose e presença
mas na essência
não passamos de filhasdasputas
- eis o nosso doutorado!